domingo, 1 de junho de 2008

Os Contactos de Portugal com o reino da Abissínia

Os Contactos de Portugal com o reino da Abissínia

Depois de tantos sacrifícios em vidas e em riquezas perdidas, o caminho marítimo para a índia foi finalmente descoberto por Vasco da Gama, que nessa intrépida e gloriosa viagem de descoberta, numa providencial escala em Melinde, na costa Oriental Africana, os portugueses vieram a conhecer terras que bem poderiam ser do “Preste João”, uma vez que foram muito bem recebidos pelo sultão local. Aliás, consta-se até que os portugueses ficaram muito bem impressionados com o fausto que encontraram na corte do rei de Melinde, e em particular, com o seu majestoso porte. Pelo que através dessa recepção, os portugueses ficaram convencidos que estavam em terras do “Preste João”. Na verdade, naquele acolhimento houve até um episódio muito singular, que contribuiu para que os portugueses ficassem ainda mais convencidos de que tinham ancorado em frente a terras do “Preste João”, dado que em determinado momento, por engano, os indígenas inclinaram-se perante um altar existente num dos navios, levando os marinheiros portugueses a concluírem que se encontravam perante um povo cristão. E, muito provavelmente, os indígenas julgaram que os portugueses eram hindus. Pelo que o entusiasmo nos dois povos explodiu em recíprocas aclamações de júbilo e contentamento. Porém, quando Vasco da Gama foi saudado por aquele povo com os gritos “Krishna! Krishna!”, que deve ter soado aos ouvidos dos portugueses como Cristo! Cristo! O entusiasmo dos marinheiros portugueses chegou ao rubro, uma vez que aquelas saudações eram sinais evidentes de que tinham aportado em terras do “Preste João”. Mas, como aquelas terras localizavam-se um pouco mais para o sul do que a cartografia portuguesa registava, surgiu pela primeira vez nos portugueses dúvidas se o rei de Melinde seria, ou não, um vassalo do rei-sacerdote?

Na verdade, durante o reinado de D. Manuel I, o rei que sucedeu ao grande D. João II, o envolvimento dos portugueses com o reino do “Preste João” foi intenso. Aliás, foi naquele reinado que se obteve o real conhecimento da existência do reino da Abissínia e, a Europa veio a reconhecer como sendo aquele reino, o reino do “Preste João” há muito procurado por esta. De facto, D. Manuel I veio a envolver-se a tal ponto com aquele reino copta, que chegou mesmo a oferecer ao seu négus uma tipografia completa, com maquinaria e mestres. Aliás, um presente que não deixa de ser muito curioso, uma vez que nos mostra claramente quanto aquele monarca tinha em conta o poder da Igreja de Roma. Pois, se tivermos em consideração que aquele monarca era copta e, que por consequência da sua orientação religiosa, tinha outras interpretações sobre o primitivo cristianismo, as quais, eram bem diferentes das opiniões e práticas de Roma. Pelo que a oferta de D. Manuel I àquele monarca deixa-nos muitas interrogações quanto ao seu real interesse. E, tanto mais que desde os meados do século XV, data em que Gutemberg inventou a fundição de caracteres e a composição tipográfica, todos os monarcas da Europa ambicionavam possuir uma daquelas oficinas impressoras, uma vez que a arte de imprimir permitia que a divulgação de conhecimentos fosse muito mais rápida do que a cópia de livros por mãos hábeis e pacientes dos monges, como até ai se divulgava toda a informação. Assim, por esta razão, as oficinas tipográficas passaram a ter um controlo apertado e uma censura prévia por parte da Igreja, sem a qual, nada podia ser impresso. Aliás, por nós é bem conhecido a necessidade que houve do parecer do Santo Ofício para a publicação em 1572 do épico livro de “os Lusíadas”. Pelo que a oferta de D. Manuel I àquele rei copta não deixa de ser curiosa, e muito elucidativa do poder de Portugal, dado que proporcionaria àquele monarca a possibilidade de divulgar rapidamente os seus conhecimentos, que como foi referido, eram contrários aos da igreja de Roma e, que ainda por cima, esta Igreja ficaria impossibilitada de exercer qualquer controlo na informação que seria produzida. Pelo que a oferta para além de ser curiosa, no mínimo é estranha, porque como foi referido, na Abissínia praticava-se um cristianismo Jacobita, ligado à Igreja copta do Egipto., que reconhecia como autoridade suprema, o patriarca de Alexandria e não o Papa.

Assim, através desta oferta de D. Manuel I ao rei da Abissínia, poderemos concluir que Portugal no século XV, mantinha um grande interesse no reino cristão da Abissínia e, muito provavelmente, porque aquele reino ocupava uma grande área a Sul do Egipto, podendo por isso oferecer aos portugueses e aos desígnios lusitanos uma importante localização estratégica para a expansão do domínio Lusitano. Dado que uma aliança com aquele reino copta, proporcionaria aos portugueses uma importante base de apoio na África Oriental. E tanto mais, que com o novo conhecimento cartográfico, se passou a admitir que aquela localização não representava uma distância da África Ocidental muito considerável.

Na realidade, durante o século XV, os portugueses mantiveram frequentes contactos com o reino da Abissínia, dos quais um se regista: Em 1509, a imperatriz Helena, que governava na altura aquele reino copta, escreveu a D. Manuel I propondo uma aliança assente numa política de casamentos entre os dois reinos. Aliás, naquela missiva, a imperatriz mostrava ter um bom conhecimento dos feitos portugueses na Índia, que para ela mais pareciam milagres do que acções humanas. Assim, dessa missiva podemos retirar que por consequência do poderio bélico de Portugal, aquela imperatriz que governava um conjunto de pequenos reinos, os quais viviam na época um momento de algum florescimento da sua cultura viria a propor aos portugueses uma aliança militar.

Sem dúvidas que a proposta de tal aliança foi motivada pela força, pela determinação e pela ousadia que os portugueses mostraram ao mundo. Aliás, o poderio que Portugal ostentava ao mundo, deixou-lhe a ideia de que os portugueses queriam assumir no Oriente um lugar de maior relevo do que a própria Igreja Bizantina, o que o espantou, dado que ainda não havia muito tempo, Constantinopla tinha sido expulsa por ter feito frente a Roma.

Em face do exposto, podemos considerar que aquele século foi um século de grande aflição para a Santa Sé. E tanto mais que por volta da mesma altura, chegaram-lhe notícias que davam conta de que um abade alemão, a quem tinham encomendado estudos científicos sobre a Bíblia, não só a traduzira para a língua alemã, o que a tornava compreensível para milhões de cristãos da Europa Central, como também criticara diversos aspectos da Igreja de Roma, nomeadamente a venda das bulas de perdão, tão necessárias para o financiamento das grandes construções em Roma. Pelo que tudo parecia negro para a Santa Sé, uma vez que foi também por volta da mesma época, que lhe surgiu outra catastrófica notícia: os portugueses tinham descoberto os cristãos de S. Tomé, na costa do Malabar. E, constataram que se tratava duma igreja cristã que se manteve na Índia desde os primeiros séculos da nossa era. E, que praticava ainda um culto ligado a um dos discípulos de Cristo, precisamente o do apóstolo são Tomé. Verificaram também, que até tinham um importante local religioso onde veneravam os restos mortais daquele apóstolo.

Perante a hecatombe que ameaçava cair sobre os céus de Roma, outros ventos de ameaça pairavam também sobre aquela cidade. Pois, para além de D. Manuel I pretender tornar-se no rei de Espanha, e para isso tudo fez, uma vez que casou com duas filhas dos reis de Espanha, e expulsou os judeus de Portugal somente para lhes agradar, planeava também com a sua política imperial de domínio e controlo do mundo, uma Cruzada ao Médio Oriente para reconquistar Jerusalém. Pelo que propôs ao Papa a sua intenção de Cruzada. O que originou na Igreja o receio do renascimento do velho poder Templário. Em face deste receio, o pontífice apressou-se a rejeitar tal intenção, como proibiu aos outros monarcas da Europa ajudarem os portugueses neste temerário e ousado intento. Mas, a grandeza de Portugal no século XVI era de tal modo impressionante, que apesar desta contrariedade, o rei D. Manuel I mesmo sem ajuda papal, ou de qualquer outra nação europeia, ostensivamente se prontificou a levar por diante tal Cruzada. E, para reforçar o seu poderio militar, o négus da Abissínia comprometeu-se a o ajudar com três mil cavalos, ao mesmo tempo que Afonso de Albuquerque se comprometeu a enviar-lhe outros tantos homens, o domínio da pérsia e, o desvio do curso natural do rio Nilo, a fim de empobrecer e fragilizar todo aquele território.

Perante tão grandes e temerários feitos, devemos nos interrogar, que força divina imbuía as gentes desta pequena grande Nação, a fazer frente à própria Igreja de Roma? Que chama dourada adornava as cabeças lusíadas, que ousavam combater exércitos superiores em número de homens e, até modificar a própria Natureza? Sem dúvidas que só poderia ser uma força inspirada pelo divino e pelo sobrenatural!

O perigo de Portugal e o reino copta da Abissínia saírem os grandes vitoriosos desta Cruzada, tornou-se mais do que evidente e mais do que provável. Roma tremeu perante tão grande poder. Roma assustou-se por tão grande coragem e tão grande determinação. Porém, o destino veio a conceder a Roma um milagre. Afonso de Albuquerque, a quem chamavam o leão dos mares, morre, como também, pouco tempo depois morre o négus da Abissínia, a quem chamavam o leão da montanha. E, pouco tempo depois morre D. Manuel I, o Venturoso. O monarca que esteve preste a ser o rei do Mundo.

Com a morte de D. Manuel I, chega pela mão de D. João III ao trono de Portugal, a mediocridade que teima em prevalecer até aos nossos dias, a qual fará com que a filosofia da expansão portuguesa viesse a mudar radicalmente, e com esta mudança estratégica o poder de Portugal no mundo entra no crepúsculo. Assim, com a mediocridade instalada na corte de Portugal, este pequeno grande reino veio a desistir do projecto da reconquista de Jerusalém e, com o fim deste sonho, os interesses portugueses no Oriente deslocaram-se mais para o extremo Oriente. Por sua vez, com o fim do sonho Templário e o ascendente dos Jesuítas nas missões do além-mar, a convivência fraterna entre os dois estados com versões diferentes de cristianismo, também veio significativamente a alterar-se. Aliás, a postura fundamentalista dos jesuítas fez com que no século XVII, viessem a ser expulsos do reino da Abissínia. Principalmente, porque não respeitaram as convicções religiosas daquele reino e, insistiram em impor um o catolicismo no territótio etíope. A partir deste acontecimento, toda a propaganda jesuítica foi no sentido de desvalorizar a importância histórica e estratégica da Abissínia cristã e considerá-la como um falso reibo do “Preste João”. Pelo que os jesuítas passaram a persistir na procura daquele lendário reino, agora por territórios da Ásia. Porém, sendo aquela Ordem exclusivista, jamais encontrariam aquele mítico reino. E tanto mais que para o encontrarem precisavam da chave esotérica do mito, que lhes faltava.

Na verdade, as relações dos portugueses com o reino da Abissínia, trouxe o conhecimento de que aquele reino não era o império magnificente do “Preste João” do mito, mas também não era tão atrasado como certa historiografia o faz crer. Contudo, uma série de contratempos e muitas contrariedades levou a que nunca se realizasse entre os dois reinos, a tão ansiada aliança. Houve até um acontecimento no final da segunda década do século XVI, que veio a contribuir para o arrefecimento das relações entre os dois povos. Nomeadamente quando o négus David, o novo monarca da Abissínia, enviou um emissário chamado Zaga Zabo a Portugal. Que mostrou ser um embaixador instruído e muito sensato. Mas, apesar daquele embaixador ter sublimes qualidades diplomáticas, acabou por sofrer a intolerância da corte do piedoso, tão distante do príncipe perfeito. Pois, no reinado de D. João III, a filosofia da expansão portuguesa começava a sofrer mudanças radicais. Antes, o cristianismo copta dos abissínios nunca tinha sido um motivo de conflito para os portugueses. Portugal chegou mesmo em 1541-1542 a socorrer aquele reino. Quando D. Cristóvão da Gama, filho do descobridor da Índia, à testa de 400 voluntários portugueses salvou o négus Cláudio duma irrupção muçulmana local, que apoiadas pelos turcos, agora senhores da Arábia e do Egipto, ameaçavam a segurança e a estabilidade daquele reino. Aliás, aquela ajuda veio a ser um acontecimento que nunca fora esperado pelos portugueses, uma vez que ao contrário do que fora idealizado por estes, era a vez do “Preste João” pedir a ajuda ao mundo Ocidental e, em particular a Portugal. D. Cristóvão da Gama acabou por morrer naquela temerária e heróica missão, e por isso não conheceu o triunfo português da missão, uma vez que no final daquela campanha, os muçulmanos retiraram.

Em suma, no século XV, com o conhecimento marítimo e cartográfico de Portugal, o poderio deste pequeno grande reino foi imenso. Dum pequeno reino marginalizado pela Europa, transformou-se numa potência militar e económica impar e sem igual, com grandes quantidades do mais sofisticado armamento, com os homens de mentes mais notáveis, com a capacidade de envio das suas forças militares para qualquer parte do globo, e com uma riqueza colossal que provinha do comércio e da exploração dos territórios recém descobertos. Mas, tal gigantismo de Portugal não teria sido possível, se os portugueses não detivessem alguns conhecimentos provenientes do “tesouro” Templário. Pois, embora o Infante D. Henrique fosse um homem excepcional, um homem de vontade férrea, e um homem que soube rodear-se da melhor elite naval e científica daquele tempo, nada poderia ter realizado se não tivesse os saberes da inquebrantável milícia de Cristo, herdeira dos mistérios do Templo. Razões, porque os capitães das suas naus foram também cavaleiros daquela Ordem, e nas velas bojarronas dos navios de Portugal foram pintadas a cruz da Ordem de Cristo, como mensageira do renascimento do pensamento Templário.

Mas, o segredo Templário não foi o bastante para projectar a grandeza desta grande Nação. Pois, esta também não teria sido possível, se os grandes nomes da nossa história não contassem com a energia mágica e divina que os portugueses transportam desde o tempo de Viriato, e que os grandes líderes sempre souberam despoletar nos lusitanos. Razão, porque os cavaleiros Templários, iniciados nos mistérios da guerra, se deram tão bem em Portugal. Como também, pela mesma razão, a Ordem de Cristo soube perpetuar nos portugueses o espírito da luz divina em prol dum ideal. Na verdade, os portugueses sob uma liderança forte e determinada, são capazes das maiores façanhas, astúcias e as mais arrojadas acções em qualquer domínio da vida humana. Assim, foi a Força Lusa que levou nos séculos XIV e XV a concretizar e a desvendar o mito do “Preste João” e a desbravar os bravios, traiçoeiros e desconhecidos oceanos. Pelo que em reconhecimento das dificuldades sofridas por estas gerações de homens que nos antecederam e em homenagem aos seus grandes feitos, curvemo-nos perante o seu valor, e meditemos sobre as palavras de Fernando Pessoa:

Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.

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